Passinho, a dança que surgiu nas favelas do Rio e eclodiu pelo mundo

“PASSINHO FODA”

O passinho foda surge na década de 2000, em uma das favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro, mas especificadamente, no Jacarezinho. Constituiu-se a partir de um movimento com os pés mais conhecido como “sabará” que impactou e estimulou diversos jovens a dançar e criar novos movimentos, espalhando a novidade pelas favelas carioca.

O “sabará” é a base principal do passinho e vai muito além disso. Os dançarinxs evoluem cada vez mais com movimentos e acrobacias de vários outros estilos como, por exemplo, do balé, tornando-o totalmente exclusivo.

Mesmo o passinho tendo uma grande desenvoltura nos bailes funk, ele permaneceu por muitos anos desconhecido. O primeiro grupo a incluir o passinho em sua composição foram os Imperadores da Dança fundado em 2006, neste tempo os dançarinxs se conheciam pelo famoso “boca-a-boca” ou dos bailes funk, ocuparam espaço e formaram organizadas competições que reuniam diferentes favelas, onde dançarinxs duelavam mostrando originalidade, criatividade e alegria.

Em 2008 as mídias sociais foram as maiores aliadas para o estouro do passinho, a primeira divulgação foi feita no Youtube e alcançou mais de 4mil visualizações, o vídeo incentivou outros jovens a utilizar o recurso e tornar o passinho de desconhecido a uma dança cultural.

 

DAS FAVELAS PARA O MUNDO

O passinho se tornou uma ferramenta que afasta o jovem favelado do tráfico e o aproxima do autoconhecimento onde desenvolve habilidades, responsabilidades e conhecimentos.

Formadores de opiniões, os veteranos na prática têm os colegas como “família” e se sentem responsáveis pelas próximas gerações não somente na dança, mas também nas escolhas da vida.

“Tem um menino  de seis anos que vem ensaiar, ele falava: eu vou ser traficante, vou ser dono da favela; depois comecei a aparecer em comerciais e em filmes o mesmo menino passou a falar: vou ser como o Severo, vou ser dançarino, vou ser passinho foda! É maneiro mudar o pensamento do outro de uma forma positiva, arte transforma e todos deveriam saber disto! ”. Diz Severo 25 com orgulho.

Desconstruindo o preconceito sobre gênero, abriu oportunidades para que mulheres dançassem o passinho como forma de empoderamento.

Celle Idd sendo uma das primeiras representantes feminina no passinho diz: “Eu sofri muito por ser a única menina entre os meninos que duelavam nas competições, hoje existem mais meninas; e o que me deu determinação para trabalhar com passinho foi o fato de me subestimarem, dizendo que eu não iria conseguir”.

 

 TRANSFORMANDO VIDAS

O passinho passa a ser muito mais que uma dança e começa a intervir na vida de cada praticante que vive a realidade, trazendo reconhecimento e fazendo com que eles sonhem ferozmente acreditando que podem fazer do passinho uma profissão.

Atualmente, grandes empresas patrocinam as famosas “batalhas” acontecem de forma organizada e os vencedores levam prêmios em dinheiro.

Uma grande parte dos dançarinxs possui seu currículo trabalhos importante como participação em novelas e até filmes premiados como A BATALHA DO PASSINHO o filme de Emílio Domingos produzido pela Osmose filmes.

Alguns dançarinxs já possuem DRT (Delegacia Regional do Trabalho) pelo SPD (Sindicado dos Profissionais de Dança) que vem a ser um registro profissional regulamentado na CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social), outrxs estão no processo de formalização.

Iguinho Imperador ressalta “Reconhecimento e respeito dentro da minha comunidade e da minha família, porque o passinho me proporcionou eu viver de dança, ser um ícone que incentiva outrxs a quererem viver de dança também. E hoje já viajei para New York, Paris, Londres, França, Suíça. O passinho me levou para um palco de teatro, aonde era erudito o que tinha lá e hoje eu trabalho com uma companhia de passinho”.

Alcançando lugares incríveis e criando uma experiência única em cada espetáculo, o passinho teve participação na Paralimpíada de Londres 2012 e nas Olimpíadas do Rio 2016.

O passinho é libertação, é vida; viver sem o passinho é a mesma coisa que não existir na terra! ” Expressa com emoção Michel Quebradeira Pura, responsável pelo Quebradeira Pura segundo grupo de passinho do Brasil.

 

Por Victória Costa 

Editora da Organização Carioquice Negra, afro empreendedora no Projeto Turban3gas e Graduanda em Serviço Social na Universidade Estácio de Sá.

 

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