Vitor Hugo, o professor de história que implementa a Lei 10.639/03 através do o Coletivo Cultura Negra na Escola

 

Vitor Hugo é um jovem negro, com 23 anos e morador da cidade de Duque de Caxias, Baixada Fluminense.

É formado em História pela Universidade Federal Fluminense, e neste ano foi aprovado no Programa de Pós-Graduação em História, da mesma Universidade. E,está desenvolvendo a sua pesquisa da época em que teve bolsa de iniciação científica, cujo o tema  é a formação de famílias e comunidade de escravizados da fazenda da Ordem de São Bento, no século XIX. A  fazenda ficava onde, atualmente, é o bairro São Bento, em Duque de Caxias. Fica há poucos minutos da casa do professor, e dotada de  uma história incrível e, pouco conhecida.

Caminhos de Vitor Hugo

Vitor Hugo é professor de História no Colégio Curso Visão, que fica no centro de Duque de Caxias. Desde 2015, trabalha nessa escola. No início ficou com as turmas do curso preparatório, para os concursos das escolas técnicas do ensino médio. Hoje, trabalha com as turmas regulares, dando aula de Brasil e História Geral – que basicamente é história européia. Segundo Vitor, o currículo escolar ainda é muito eurocêntrico. Em que a História do Brasil ainda é pensada de uma maneira colonial e branca, onde os principais atores são homens e brancos, outros grupos raciais e gênero aparecem com coadjuvantes, apêndices ou sem voz.

O professor super valoriza a educação e tem preocupação com o ensino. Engajado nesta luta, desde a graduação é integrado em movimentos pautados na visão de ter uma educação mais democrática e anti-racista.

Desde 2013, ele ajuda a construir o Coletivo Cultura Negra na Escola, formado por alunos, na época da graduação em História da UFF, hoje, alguns já são formados, e estão na pós-graduação em outras universidades como o Museu Nacional e a UniRio, outros estão focados em projetos musicais como o grupo de rap LadoA e o grupo de pagode Compromisso do Samba. O Coletivo tem 5 anos e o objetivo sempre foi trabalhar nas escolas para a promoção efetiva da lei 10.639/03, que institui o ensino obrigatório de História e Cultura africana e afro-brasileira, nas escolas.

“Essa lei tem mostrado um impacto profundo na forma como Escola lida com a temática racial no Brasil, mas ainda há um grande caminho há ser percorrido. Muito se fala de como essa lei não funciona, e como a escola, enquanto instituição, a negligência, eu acho que o mais interessante não é destacar como a lei pode se tornar “letra morta” ou para “inglês ver” –  isso acontece com muitas leis no Brasil e no mundo – mas como ela tem potencializado ações criativas e um ponto central nas lutas políticas dos movimentos sociais e do movimento negro por uma educação democrática. Acho que o trabalho do Coletivo se encaixa nessa perspectiva. Somos uma ação criativa por que a todo momento estamos pensando e repensando formas de trabalhar essas temáticas em sala de aula, e em como transgredir o currículo.” Relata Vitor Hugo.

Dentro desses cinco anos, até o ano passado o Coletivo trabalhou  no formato de oficinas, em que tinham a oficina de História da África , de Samba, Funk, Rap, Jongo em que o Vitor Hugo participa, tendo como inspiração o Teatro do Oprimido, que através da encenação teatral, busca dar um “start” a uma series de debates como a estética negra, a violência policial, ações afirmativas, atitudes racistas na escola. Nesse formato, o coletivo foi  em escolas de Araruama, Saquarema e Niterói.

Em 2017, o Coletivo está  trabalhando apenas em uma escola, a Escola Estadual Guilherme Briggs, que fica no bairro Santa Rosa, em Niterói. A intenção, no momento, é fazer um trabalho a longo prazo, em parceria com a professora Eleonora Abad, que também é professora de História, e amiga do Coletivo há alguns anos, e transgredir o currículo ao longo de todo o ano, não só nas datas comemorativas como o mês de maio e novembro. Transgredir o currículo é possível durante todo o ano escolar, e necessário para não  exotizar a História e Cultura Negra, como quando só no 20 de Novembro e no 13 de Maio, as escolas fazem algumas atividades mais voltadas para questão racial.

No entanto, a Universidade sendo ainda, um espaço extremamente branco, elitista e racista, ocupar os âmbitos acadêmicos é essencial. Ocupar e empretecer! É preciso pensar que tais lugares também pertencem a nós, negros.

 

”Eu falo de uma perspectiva de um aluno de Humanas, de História. A academia sempre escreveu sobre a população negra, até por que é impossível estudar o Brasil, sem levar em conta o peso e impacto que a população negra teve  e tem na nossa formação, mas é sempre na perspectiva de estudar o outro, estudar os afro-brasileiros enquanto objeto. Guerreiro Ramos uma vez escreveu que existem aqueles que estudam o “negro-tema”, e aqueles que estudam o “negro-vida”. O “negro-tema”, é o negro enquanto somente tema de pesquisa, que é o que ainda predomina, é preciso que estejamos nesses espaços para que cada vez mais estudemos o “negro-vida”, o negro que transcende  ao simples objeto de estudo, e seja encarado em toda a sua complexidade.”Alega o professor.

 

Por com disso, a luta por cotas raciais na pós-graduação, que o Coletivo Pró-Cotas da UFF –  que surgiu no ano passado com esse objetivo – é fundamental. O momento é de deixarmos o protagonismo como objetos e sermos os autores e escritores da nossa própria história. É preciso levar nossa subjetividade para a produção científica. Em alguns departamentos como na Antropologia, História, Psicologia, Comunicação Social, e em uma linha de pesquisa em Direito já obtivemos vitórias e a luta permanecerá, para que muitas outras sejam possíveis.

Em História, Vitor Hugo, também, participou do debate de um novo currículo para o curso, com a adição de mais uma matéria obrigatória sobre África (só havia uma). Além de uma disciplina obrigatória sobre relações raciais e outras sobre gênero. Segundo o professor, são conquistas significativas para democratização do ensino, estaremos formando profissionais e cidadãos mais atentos e preocupados com essas questões, e levarão esses debates para a sala de aula. É um efeito em cadeia, que demora anos, mas estamos avançando.

Movimentos como estes não seriam possíveis sem a implementação de cotas raciais na graduação. A Universidade Federal Fluminense só aderiu ao sistema em 2013! Apesar das inúmeras denúncias de fraudes, com alunos brancos ocupando as vagas destinadas a indivíduos negros, o perfil da universidade tem mudado. Ainda está longe do ideal, mas cada vez mais há estudantes negros no meio acadêmico e esse aumento é que faz gerar demandas como as que foram mencionadas.

 

“Fico orgulhoso de fazer parte dessa geração, e poder contribuir. “ Vitor Hugo.

Vitor Hugo e o Racismo

“O racismo está em nossa vida cotidiana. Eu poderia dar inúmeros exemplos, mas vou ficar com um só. Certa vez, estava saindo para dar aula, eram mais ou menos umas 7 horas da manhã, descendo a minha rua, ainda no “piloto automático”, quando você está meio sonolento, e uma senhora que estava sentada na calçada, mexendo no celular, quando me viu, tomou um susto e guardou, rapidamente, o celular. Eu estava indo trabalhar, mas o que ela viu, foi um jovem negro como potencial assaltante, não como professor, aluno de mestrado. É a mesma visão da polícia, da novela, dos noticiários. O racismo não é sutil. Não gosto quando colocam dessa maneira. Não tem como ser sutil e violento, ao mesmo tempo. O racismo no Brasil é extremamente violento, simbolicamente e fisicamente. Jovens como eu viram números para estatísticas de assassinatos que alunos universitários. E isso não é sutil. Nós naturalizamos o racismo a tal ponto que parece que ele é sutil, mas não é. Nunca foi. E ele é mais prejudicial quando se é jovem, pois mina nossas experiências, expectativas e sonhos. “ Diz Vitor Hugo.

Representatividade

 

Na visão de Vitor, a representatividade que os negros tem, atualmente, ainda, não é a ideal, mas que estamos em uma trajetória evolutiva, constituída de muitos avanços. É maravilhoso ver negros em destaque e ter a certeza de que, não é por acaso ou sorte.

“Falando de mídia, não é por acaso o destaque do Lázaro Ramos, Taís Araújo e Maju. São anos de denúncia a televisão brasileira, que é uma concessão pública, mas ainda assim não representa a população brasileira em sua pluralidade. “A negação do Brasil” documentário de Joel Zito é um trabalha incrível sobre isso. É importante também que a representatividade não caia no individualismo. Não adianta termos alguns exemplos de destaques, e a maior parte da população afro-brasileira ainda sofra com as desigualdades sociais. A representatividade serve para abrirmos caminhos para nós, não para colocarmos pessoas em pedestais ou reforçarmos o discurso meritocrático. Nós negros sabemos de quantas pessoas são necessárias para alcançarmos o “mérito”. É muita gente envolvida, são projetos familiares de gerações, são amigos que dão força, vizinhos. Enfim, temos que realçar essa rede de apoio e afeto que nos fez não desistir. Essa rede é a representatividade, não os indivíduos.  “ Afirma o professor.

Vitor Hugo agradece as redes pelo êxito logrado na graduação e mestrado em História e finaliza dizendo:

“Meu avô paterno, era um homem negro, da Paraíba. Veio para o Rio de Janeiro, mais ou menos com a minha idade. Minha avó paterna, mulher negra, de Araruama, interior do Rio de Janeiro. E vieram tentar a vida no Rio de Janeiro, era a capital na época. Com muita dificuldade construíram suas vidas em Duque de Caxias, no início da década de 60. Na época Caxias era “só mato”. Tiveram 5 filhos, quase todos eles formados, hoje. Meu pai se formou em Farmácia, em 1987, na UFF também. 30 anos depois, eu me formei pela mesma Universidade. Minha mãe se formou em Direito no mesmo ano que eu entrei na faculdade, meu pai ajudou pagar. Ela fez numa Universidade privada. Entende, como não é por acaso? São projetos. Eu não posso contar minha trajetória e minhas conquistas de uma perspectiva individual. Os laços que nós construímos que são representativos.”

Vitor Hugo é um exemplo e inspiração para o povo negro. Está sempre pesando no próximo e no que fazer para melhorar o cenário do negro no Brasil. Esbanja sorriso e carisma por onde passa, emanando boas energias para quem dele se aproxima. Comunicativo, faz amizade facilmente e enche de orgulho quem o conhece. Jovem humilde, honesto, visionário e  que tem um futuro magnífico. Ubuntu!

Saiba mais sobre o Coletivo Cultura Negra na Escola aqui.

Por Amanda Martins

Graduanda em Direito na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Pesquisadora em Energia no Núcleo de Pesquisas Brasil-Chile, Editora, membro da Organização Carioquice Negra, escritora, cantora e compositora

 

 

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