Jovem negra que enriquece a Bahia e o mundo com o seu violino

A música é um idioma universal

Karen Silva é de Salvador, Bahia, tem 28 anos de idade, é violinista e está terminando o seu Bacharelado em Instrumento-Violino na Universidade Federal da Bahia e em breve estará de volta a Salvador após 9 meses de intercâmbio em Stavanger – Noruega.

Iniciou sua carreira aos 5 anos de idade, incentivada por sua mãe, que acreditava que poderia ter um futuro brilhante na música e a colocou para estudar no Instituto de Educação Musical.

Ela escolheu violino por ser o instrumento que cabia no ônibus, mas o seu sonho era o piano, no entanto, não tinha um em casa. A sua irmã Kívia, passou pelo mesmo processo e atualmente toca contrabaixo, sendo as duas, as únicas musicistas da família.

 

O amor pelo violino e a música

A decisão final de estudar música veio após o fracasso em dois vestibulares, e o intercâmbio surgiu quando ela decidiu dar a última chance à carreira, caso desse errado, ela desistiria e iniciaria qualquer outra carreira profissional, então entrou em contato com um amigo violoncelista da Orquestra Sinfônica de Stavanger Ilmari Hopkins, querendo saber como funcionava o processo de audição para a University of Stavanger. Ele passou as diretrizes, ela fez a audição e passou. Foi para lá em setembro/2016 e voltou no final de  junho deste ano.

Quando indagada sobre como é ser negra no Brasil, Karen respondeu: “…ser mulher nesse mundo é tenso, negra então… por muitos momentos e vezes eu evito falar sobre isso por questões de desentendimentos do meu discurso ou, até mesmo, por não querer falar sobre, especialmente agora que passei por uma das experiências mais marcantes para mim, num país tão igual como a Noruega.

Mas é aquela história, o Brasil é um bebê ainda e tem muito o que viver ainda. Eu acho que ainda terão muitas revoluções (assim espero) por vir hahaha.”

 

Karen é violinista de concerto e diz que com a crise, o âmbito cultural sofreu um baque geral, e que no Brasil sempre foi complicado ser músico pela falta de investimento, planejamento e o pequeno pensamento cultural “isso é música europeia”. Então a demanda é pequena nessa esfera pelo público não consumir o que não conhecem, além da elitização desse gênero musical que perdura por séculos.

 

Quando entrou para o NEOJIBA – Núcleos Estaduais de Orquestras e Corais Juvenis e Infantis da Bahia, um programa prioritário do Governo do Estado da Bahia < http://www.neojiba.org> de integração social através da música e através dele ela iniciou a expansão dos seus horizontes.

 

Pelo programa ela deu aula para crianças e jovens, tocou com grandes músicos e fez turnês nacionais e internacionais pelos melhores teatros do Brasil e do mundo, fora os concertos no Teatro Castro Alves, em Salvador, que muitas vezes se encontravam esgotados…  e afirma: ”Nunca que antes desse projeto eu faria algo dessa magnitude!! Programas como o NEOJIBA fazem com que a música de concerto (para alguns, europeia) se se torne acessível e perca o paradigma de que isso é ‘coisa de elite’. Ou seja, para ter oportunidade, basta investir, porque retorno tem! ”

 

Segundo Karen, idade é algo muito importante em algumas situações e profissão e afirma que decidiu tarde que queria seguir a carreira de violinista, tem em vista alguns segmentos dessa área: “Mas eu sou brasileira e baiana! Oportunidades nessa área, querendo ou não, ainda são escassas no Brasil e na Bahia, então não há razão para se manter esse pensamento de que quanto mais jovem, melhor! Idade não importa quando se tem talento e dedicação! ”

 

Ela afirma que há muitos jovens e adultos negros latinos na música de concerto, o que a estimula, inventiva e a deixa feliz, pois a música não faz distinção de pessoas, é um idioma universal.

E finaliza: Racismo é real no Brasil. Precisamos admitir isso e sermos melhores! Paremos com esse mimimi de “brasileiro não é racista” porque é sim! Salvador é a cidade mais negra fora da África e onde eu mais sofri/sofro preconceito!!

Se eu disser que passei por algum problema desse nos meus nove meses morando na Noruega eu tô mentindo. Não disse que isso não existe lá, disse que não passei por problemas desse tipo… Nem de forma sutil, o que pode acontecer e, se tratando de Europa, dependendo do lugar, é comum.

A juventude, não somente negra, mas no geral, eu acho que precisa estudar mais, saber dos seus direitos e argumentar melhor sua opinião. Digo isso porque, nesse mundo todo conectado que a gente vive, é muito fácil compartilhar “hoax”, vomitar opinião pronta e coisas do tipo sem ao menos se dar ao prazer de pesquisar sobre, analisar as situações e pensar e formular um argumento que valide seu posicionamento! Do que adianta polemizar usando discurso ctrl + c ctrl + v??

Precisamos ser menos preguiçosos e sermos mais curiosos! Questionar, analisar, respeitar opiniões adversas, não impor as próprias opiniões, tolerar… Tá faltando curiosidade na juventude brasileira! ”

 

Por  Amanda Martins

Graduanda em Direito na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio,Pesquisadora em Energia no Núcleo de Pesquisas Brasil-Chile, editora, membro da Organização Carioquice Negra, escritora, cantora e compositora

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