A Geografia o levou a lecionar no Colégio e Curso PH

Professor de Geografia do Colégio e Curso PH

 

Douglas Nogueira

 

Jovem negro, 26 anos, nascido em Vila Aliança e criado em Padre Miguel. Filho da Dona Márcia que é secretária e do sr. Sérgio, que é segurança.

Em sua infância teve de tudo, menos dinheiro, criado pela avó Dona Lurdes, que costumava andar pelo quintal com uma vara de goiabeira, aprendeu com ela, desde cedo, o que é respeito! Ela é uma das maiores responsáveis pela educação dele.

Sempre teve apoio dos pais para tudo. Foi estudante de escola pública e não considerava-se um aluno promissor, não priorizava muito a educação, desconhecia o poder que ela tem, achava a matéria de geografia chata, mas em 2009, por imposição de seu pai, entrou para um curso comunitário da rede Educafro e, a partir disso, viveu uma desconstrução e reconstrução, por meio da educação, tornou-se um novo Douglas, que descobriu que haviam pessoas de seu bairro na faculdade e que ele poderia ser um deles.

Seus dias eram divididos em manhãs e noite, em sala de aula e as tardes, era estudando por onde dava, inclusive no corredor, na escada, entre outros.

Seu dia era sustentado com o almoço do restaurante popular, a um real e depois de um ano de dedicação, fez o vestibular para a UERJ e UFRJ, sendo aprovado nas duas.

Na UERJ, em primeiro lugar na reserva de vagas para negros e na UFRJ, foi convocado na 5ª reclassificação e optou pela UERJ, por ela ter um dos melhores cursos de Licenciatura da América Latina, ele viu nela a oportunidade de aproximar-se do seu sonho: dar aulas.

Há duas semanas antes da prova discursiva da UERJ, seu avô Benedito foi internado, com câncer, e Douglas ficou com ele no hospital, fazendo companhia ao avô e estudando ao mesmo tempo.Sr. Benedito faleceu no dia do resultado final da UERJ e na véspera do aniversário de Douglas, que recebeu a notícia que havia sido aprovado, em meio a um momento extremamente doloroso.

Com a aprovação, tinha que estudar em outra cidade, sem renda e somente o seu pai trabalhava naquele momento, então ele procurou soluções e, foi flanelinha, vendeu refrigerante na Sapucaí, foi agente de trânsito e staff de show. O custo com transporte para São Gonçalo, onde é o Campus UERJ FFP, era muito caro, então seu pai sugeriu que morasse perto da faculdade, e assim ele fez…encontrou um lugar que cabia no seu bolso, subida do morro do feijão, dividindo o quarto com mais três pessoas, se alimentando de nugget e feijão, que levava da casa de sua avó.

Com tantas dificuldades, resolveu fazer estágios e monitorias, mesmo estando no início da faculdade, e no segundo período, fez a prova para a monitoria do PH e não passou. Em sequência, fez a prova aula também, e não obteve êxito, não estudou como deveria, pois, sua avó estava para fazer uma operação. Então ouviu: ” – Douglas, você ainda é novo e deve rever o desejo de ser professor, você não tem postura e sua voz não passa confiança”. Ele ficou arrasado e achou que realmente não podia, por ser preto!

Um mês depois, já era professor do pré-vestibular do Estado, passou no concurso para ser estagiário da Prefeitura do Rio de Janeiro, e em mais dois cursos sociais.

Foi um momento em que pôde demonstrar sua capacidade. Era tudo muito corrido e difícil, mas a cada dia ele tinha certeza de ter nascido para ser professor.

Passou a dar aulas particulares em um curso super tradicional na Barra da Tijuca, e viu a necessidade de ser duas vezes melhor, tendo em vista, também, os pais dos alunos, que sempre buscavam falhas em sua conduta e faziam perguntas, achando que ele não ia responder e ele respondia.

Em 2013, passou por outro momento difícil, no dia do falecimento da sua avó Maria Angélica, perdeu suas fontes de rendas, das quais, conquistou com muito sacrifício. Então juntou suas economias, e foi fazer um curso para o concurso do Banco do Brasil, mas no meio do curso recebeu a informação de que o PH havia aberto o concurso para monitoria novamente.

Em apenas três dias estudou e fez a prova, foi um dos 7 aprovados dos 517 concorrentes,

ficou super feliz pela conquista e por ser uma das maiores escolas do Brasil.

Com muito empenho, no primeiro ano, tornou-se o monitor destaque da sua equipe. Após 1 ano, foi não passou na seleção para a formação de professores da instituição, e passou o ano todo solicitando oportunidades, até que obteve e deu conta do recado.

Atualmente, ele é o mais novo membro da equipe de Professores do Colégio e Curso PH, tem independência financeira, mas ainda distante do que almeja.

Como jovem negro, passa pelas mesmas coisas que os demais jovens negros, mas vê o quanto os policiais se envergonham ao ver no banco do carro, livros e apostilas e nos deixa um recado: ” Temos que buscar a todos os momentos sermos bons, qualificados, devemos ocupar os espaços sim, e se possível transformá-los em lugares que venham a receber melhor pessoas como nós, essa é a missão dos pioneiros, criarem um solo fértil para que a cor negra possa sempre estar presente ali. Não me vejo como exemplo e sim como possível experiência para todos, assim como todos nós somos.”

 

Por  Amanda Martins

Graduanda em Direito na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio,Pesquisadora em Energia no Núcleo de Pesquisas Brasil-Chile,editora, membro do Projeto Carioquice Negra,escritora, cantora e compositora

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